Remuneração Estratégica e Total Compensation: conceitos e tendências para 2027

Total Compensation e remuneração estratégica, Instituto Chiavenato

Quando se analisa por que profissionais de alto desempenho deixam as organizações, a resposta dificilmente começa pelo salário. Pesquisa da McKinsey & Company (2025), com mais de 13 mil líderes de RH em 24 países, revelou que a remuneração percebida como injusta aparece em terceiro lugar entre os fatores de saída voluntária, atrás da falta de crescimento e da cultura organizacional tóxica. Essa sequência desafia a premissa de que pagar mais resolve o problema de retenção. Ao mesmo tempo, remuneração percebida como justa e competitiva é condição necessária, ainda que insuficiente, para que as demais iniciativas de engajamento funcionem.

Este é o paradoxo que o CHRO moderno precisa navegar: a remuneração não resolve tudo, mas resolve o suficiente para que tudo o mais faça sentido. É nesse contexto que os conceitos de remuneração estratégica e de total compensation ganham renovada urgência, não como modismos de RH, mas como ferramentas de gestão com impacto mensurável em atração, retenção e produtividade.

Este artigo examina os fundamentos conceituais da remuneração estratégica, detalha os componentes de uma arquitetura de total compensation contemporânea e analisa as tendências que vão redesenhar as políticas salariais até 2027. O recorte é deliberadamente executivo: não se trata de um guia operacional para analistas de cargos e salários, mas de uma perspectiva estratégica para quem decide sobre pessoas nas organizações.

O que é remuneração estratégica

A remuneração estratégica é a abordagem que subordina as decisões sobre compensação aos objetivos de longo prazo da organização. No campo da gestão de pessoas, Chiavenato (2024) define a remuneração nos seguintes termos:

A remuneração é o processo que envolve todas as formas de pagamento ou de recompensas dadas aos funcionários e decorrentes do seu emprego.

Idalberto Chiavenato, Gestão de Pessoas, 6. ed., cap. 12

Para ser estratégica, essa compensação precisa estar alinhada à cultura, aos valores e às prioridades competitivas da empresa. O que diferencia a remuneração estratégica da remuneração administrativa convencional é justamente esse alinhamento. Na abordagem convencional, o foco recai sobre equidade interna e benchmarking externo: pagar o que o mercado paga, evitar distorções entre cargos similares e garantir conformidade legal. São objetivos legítimos, mas insuficientes quando a disputa por talentos se intensifica e quando o perfil do trabalho muda mais rápido do que as estruturas salariais conseguem acompanhar.

Na abordagem estratégica, a pergunta de partida muda. Em vez de perguntar o que o mercado paga por determinado cargo, a organização passa a perguntar qual remuneração atrai, retém e motiva o perfil de profissional que a sua estratégia exige. Essa inversão implica aceitar que organizações diferentes, com estratégias diferentes, devem ter políticas de remuneração diferentes, mesmo que atuem no mesmo setor e concorram pelos mesmos talentos.

Um exemplo ilustra o ponto. Empresas que competem por inovação tendem a comprimir a remuneração fixa e a ampliar a participação em resultados e em equity, porque esse modelo atrai o perfil que aceita risco em troca de upside. Empresas que competem por excelência operacional preferem salários fixos mais altos e bônus atrelados a indicadores de eficiência, porque esse perfil valoriza previsibilidade. A mesma posição de engenheiro sênior terá pacotes radicalmente distintos nos dois contextos, e essa distinção é deliberada, não acidental.

Total compensation: o que compõe o pacote completo

O conceito de total compensation, ou remuneração total, é mais abrangente do que o salário nominal e mais preciso do que a noção informal de pacote de benefícios. Ele compreende todos os elementos de valor econômico que o profissional recebe em troca de sua contribuição à organização, financeiros e não financeiros. A Willis Towers Watson (2025) estrutura o total compensation em quatro camadas que se complementam e se reforçam.

1. Remuneração direta

É a compensação monetária recebida pelo trabalho, a base do pacote. Subdivide-se em remuneração fixa (salário-base, adicional por mérito, adicionais legais) e remuneração variável (bônus por desempenho, participação nos lucros e resultados, comissões, prêmios). Segundo a Mercer (2026), empresas do setor de tecnologia no Brasil destinam, em média, 32% da remuneração total a componentes variáveis, proporção que cai para 18% no setor financeiro e 12% na indústria de transformação.

2. Benefícios e proteções

Plano de saúde, previdência complementar, seguro de vida, auxílio-alimentação, transporte e outros benefícios com valor monetário explícito. A SHRM (2024) identificou que, nos Estados Unidos, os benefícios representam em média 31% do custo total de compensação, proporção que no Brasil varia conforme setor e porte da empresa. A tendência crescente é a beneficização da remuneração: converter componentes fixos em benefícios flexíveis, com tratamento tributário mais favorável para ambas as partes.

3. Desenvolvimento e aprendizado

Programas de treinamento, certificações patrocinadas, acesso a plataformas de educação continuada e bolsas de estudo. O mercado reconhece de forma crescente que oportunidades de treinamento e desenvolvimento têm valor econômico real. A Deloitte (2025) estima que profissionais da geração millennial aceitam redução de 5% a 12% no salário-base em troca de acesso a programas robustos de desenvolvimento. Para organizações com cultura de aprendizagem, isso representa vantagem competitiva direta no recrutamento.

4. Ambiente e experiência de trabalho

Flexibilidade de horário e de localização, qualidade do ambiente físico, autonomia, reconhecimento não financeiro e pertencimento cultural. A Korn Ferry (2026) nomeia este componente como remuneração experiencial e documenta que ele tem peso crescente nas decisões de permanência, especialmente entre profissionais com mais de oito anos de carreira.

A soma dessas quatro camadas constitui o que o mercado chama de EVP, sigla de Employee Value Proposition, ou proposta de valor ao colaborador. Uma EVP coerente é aquela em que todos os componentes se reforçam mutuamente e comunicam uma mensagem consistente sobre quem é a organização e que tipo de relação ela propõe aos seus profissionais.

Por que a remuneração estratégica é determinante para a retenção

A relação entre remuneração e retenção é real, mas não linear. Dados do Glassdoor (2025) mostram que profissionais que saem espontaneamente de organizações raramente apontam apenas o salário como razão isolada. O que aparece com mais frequência são percepções de injustiça: a sensação de receber menos do que colegas na mesma função, ou menos do que o mercado paga por competências equivalentes. Essa distinção é crítica para o gestor de RH, porque o problema não está sempre no nível absoluto da remuneração, e sim na percepção de equidade.

A equidade interna e externa da remuneração constitui uma das mais importantes preocupações das organizações, pois impacta diretamente a motivação, o comprometimento e a produtividade das pessoas.

Idalberto Chiavenato, Gestão de Pessoas, 6. ed., cap. 12

Equidade interna refere-se à coerência entre os salários de funções comparáveis dentro da mesma organização. Equidade externa compara a remuneração oferecida pela empresa com o que o mercado pratica para funções similares. As organizações que conseguem manter as duas equidades simultaneamente, e comunicá-las com transparência, apresentam taxas de turnover voluntário sistematicamente menores do que o benchmarking setorial, segundo dados consolidados da Mercer (2026).

A questão se complexifica quando se considera a diversidade de perfis dentro de uma mesma organização. O mesmo pacote de remuneração total pode ser altamente atrativo para um profissional sênior com filhos pequenos, que valoriza plano de saúde amplo, flexibilidade e previdência complementar, e pouco relevante para um jovem profissional sem dependentes, para quem upside financeiro, aprendizado acelerado e reconhecimento público pesam mais. A remuneração estratégica lida com essa heterogeneidade por design, e não por exceção. Esse é também o ponto em que a política salarial se conecta diretamente às práticas de atração e retenção de talentos e ao desenho dos processos de recrutamento e seleção.

Tendências de total compensation para 2027

As projeções para os próximos dois anos indicam mudanças estruturais nas políticas de compensação, e não apenas ajustes incrementais. Quatro tendências merecem atenção particular dos CHROs.

1. Flex benefits: da padronização à personalização

A Willis Towers Watson (2025) documenta que 61% das grandes empresas brasileiras já oferecem alguma forma de benefício flexível, percentual que era de 38% em 2022. A trajetória aponta para sistemas em que o profissional gerencia um orçamento de benefícios e o distribui entre as opções disponíveis conforme suas prioridades. A tecnologia tornou isso viável operacionalmente; o que faltava era vontade estratégica. Organizações que implementaram flex benefits reportam aumento médio de 14% no índice de satisfação com os benefícios, sem aumento proporcional de custo.

2. Transparência salarial como competência de marca empregadora

A Diretiva (UE) 2023/970, aprovada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho em maio de 2023, estabeleceu regras de transparência salarial que os Estados-membros precisam transpor para as legislações nacionais até 7 de junho de 2026. Entre as obrigações previstas estão informar a faixa salarial ao candidato antes do processo seletivo, válida para empregadores de qualquer porte, e o relatório periódico de diferença salarial entre homens e mulheres, exigido das organizações com 250 ou mais funcionários a partir de junho de 2027 e estendido às que têm entre 100 e 149 funcionários a partir de junho de 2031.

No Brasil não há legislação equivalente, mas a tendência já se manifesta por outro canal: profissionais usam plataformas como Glassdoor e LinkedIn Salary Insights para comparar remunerações antes de aceitar propostas. O Glassdoor (2025) aponta que 79% dos candidatos pesquisam salários online antes de aceitar uma oferta. Organizações que comunicam proativamente suas políticas salariais, mesmo sem obrigação legal, reportam maior volume e melhor qualidade nos pipelines de recrutamento.

3. Remuneração por competências, não por cargo

O modelo tradicional de remuneração atrelada ao cargo, em que o nível hierárquico determina a faixa salarial, perde aderência em ambientes nos quais o trabalho é progressivamente organizado por projetos, equipes multidisciplinares e squads. A Deloitte (2025) projeta que 40% das grandes organizações globais terão migrado para modelos de remuneração baseados em competências até 2027. Nesse modelo, o que define a remuneração não é o título na carteira, mas o conjunto de habilidades que o profissional demonstra e aplica, o que cria incentivos mais alinhados ao desenvolvimento contínuo e exige integração com a avaliação de desempenho.

4. Bem-estar como pilar de compensação

A pandemia institucionalizou o bem-estar como componente legítimo da proposta de valor ao colaborador. Mas o que mudou estruturalmente não foi apenas a oferta de benefícios de saúde mental: foi o reconhecimento de que profissionais esgotados não são produtivos, independentemente do salário. A McKinsey (2025) estima que o absenteísmo e o presenteísmo decorrentes de esgotamento profissional custam às organizações brasileiras entre 3% e 7% da folha de pagamento anual. Investir em bem-estar, com metas, métricas e orçamento próprio, não é filantropia corporativa: é gestão financeiramente responsável.

Como implementar uma política de remuneração estratégica

A transição de uma política de remuneração convencional para uma abordagem estratégica não acontece por decreto. Ela exige diagnóstico, decisão e execução sistemática. Os passos a seguir não são receita universal: são uma estrutura de referência que precisa ser adaptada ao contexto de cada organização.

  1. Mapear as competências críticas. Antes de redesenhar qualquer faixa salarial, é necessário identificar quais competências são mais escassas e mais determinantes para a estratégia. Esse mapeamento alimenta as decisões sobre onde pagar acima do mercado, onde pagar na mediana e onde pagar abaixo, compensando em outros componentes do total compensation.
  2. Segmentar a força de trabalho. Nem todos os profissionais têm os mesmos drivers de motivação ou as mesmas necessidades de compensação. Uma análise de clusters por área, por geração e por nível de senioridade permite personalizar a proposta de valor sem fragmentar a política a ponto de torná-la ingerenciável.
  3. Definir bandas salariais com critérios explícitos de progressão. A clareza sobre o que determina o avanço dentro de uma banda é instrumento de equidade e ferramenta de engajamento: profissionais que sabem o que precisam desenvolver para crescer têm mais razões para permanecer e investir na própria trajetória.
  4. Comunicar com clareza. Talvez o passo mais negligenciado. Uma política de remuneração excelente que os profissionais não compreendem não gera o retorno esperado.

A transparência e a comunicação eficaz sobre a remuneração são tão importantes quanto a remuneração em si, pois influenciam a percepção de justiça e o engajamento.

Idalberto Chiavenato, Gestão de Pessoas, 6. ed.

Indicadores para avaliar a efetividade da política de remuneração

Uma política de remuneração estratégica precisa de indicadores de resultado que vão além do simples acompanhamento da massa salarial. As métricas a seguir, recomendadas pela SHRM (2024), permitem avaliar se a política está entregando o que se propõe.

IndicadorO que medeSinal de alerta
Índice de competitividade salarial (ICS)Razão entre o salário médio praticado pela organização e a mediana de mercado para cada família de cargos.Abaixo de 0,90 em funções críticas indica risco de perda de talentos. Acima de 1,15 em funções não estratégicas indica desperdício de recursos.
Taxa de aceitação de ofertasPercentual de candidatos que aceitam as propostas feitas pela organização.Abaixo de 70% em processos seletivos competitivos sugere desalinhamento entre o pacote oferecido e as expectativas do mercado.
Turnover voluntário em funções críticasSaída espontânea entre high performers e ocupantes de posições-chave.Acima de 10% ao ano nesse grupo deve acionar revisão imediata da política.
Índice de percepção de equidadeColetado por pesquisa de clima, mede se os profissionais percebem a própria remuneração como justa em relação a colegas e ao mercado.Queda sustentada entre dois ciclos antecipa movimentos de saída antes que se materializem.

Conclusão

A remuneração estratégica não é um projeto de RH com início, meio e fim. É uma capacidade organizacional que precisa ser construída, calibrada e revisada continuamente, porque o mercado de talentos muda, as estratégias mudam e o que motiva as pessoas muda. CHROs que tratam a compensação como variável dependente da estratégia, e não como custo a ser minimizado, encontram nela uma alavanca real de vantagem competitiva.

Um total compensation bem estruturado comunica, antes de qualquer discurso institucional, o que a organização de fato valoriza. Ele diz mais sobre a cultura real da empresa do que qualquer declaração de valores na parede. E é por isso que redesenhar a política de remuneração é, em essência, uma decisão estratégica, e não uma tarefa administrativa.

Leituras recomendadas

Para aprofundar os fundamentos conceituais que embasam a gestão estratégica de pessoas, incluindo remuneração, desenvolvimento e avaliação de desempenho, as obras do Prof. Idalberto Chiavenato oferecem o arcabouço teórico mais completo disponível em português para o mercado brasileiro.

Gestão de Pessoas: o Novo Papel da Gestão do Talento Humano (6. ed.)
Idalberto Chiavenato, Lucas Chiavenato e Cauê Bazzola | GEN/Atlas
Referência para CHROs e gestores de RH: fundamentos, modelos e práticas de remuneração estratégica, avaliação de desempenho e desenvolvimento de talentos.

Recrutamento e Seleção de Pessoas: Colocando as Pessoas Certas nos Lugares Certos
Idalberto Chiavenato | GEN/Atlas
Estratégias para atrair os profissionais certos, complemento indispensável a uma política de remuneração competitiva.

Ver o catálogo completo na loja do Instituto Chiavenato

Perguntas frequentes sobre remuneração estratégica e total compensation

O que é remuneração estratégica?

É a abordagem que subordina as decisões sobre compensação aos objetivos de longo prazo da organização. Em vez de apenas replicar o que o mercado paga por cargo, a empresa define que remuneração atrai, retém e motiva o perfil de profissional exigido pela sua estratégia.

Qual a diferença entre remuneração estratégica e total compensation?

Remuneração estratégica é a lógica de decisão: para que serve a política salarial. Total compensation é o escopo do pacote: tudo o que o profissional recebe em valor econômico, incluindo remuneração direta, benefícios, desenvolvimento e experiência de trabalho.

O que compõe o total compensation?

Quatro camadas: remuneração direta (fixa e variável), benefícios e proteções, desenvolvimento e aprendizado, e ambiente e experiência de trabalho. A soma dessas camadas forma a proposta de valor ao colaborador, conhecida pela sigla EVP.

Como medir se a política de remuneração está funcionando?

Com quatro indicadores principais: índice de competitividade salarial, taxa de aceitação de ofertas, turnover voluntário em funções críticas e índice de percepção de equidade. Os dois primeiros medem posicionamento de mercado; os dois últimos medem o efeito interno da política.

A transparência salarial é obrigatória no Brasil?

Não existe no Brasil legislação equivalente à Diretiva (UE) 2023/970, que os países da União Europeia precisam transpor até 7 de junho de 2026. Ainda assim, a comparação de salários por plataformas públicas já funciona como transparência de fato, o que torna a comunicação proativa das faixas uma vantagem de marca empregadora.

Referências

CHIAVENATO, Idalberto; CHIAVENATO, Lucas; BAZZOLA, Cauê. Gestão de Pessoas: o Novo Papel da Gestão do Talento Humano. 6. ed. São Paulo: GEN/Atlas, 2024.
DELOITTE. Global Human Capital Trends 2025. Nova York: Deloitte Insights, 2025.
GLASSDOOR. Salary Transparency Report 2025. São Francisco: Glassdoor, 2025.
KORN FERRY. Pay Trends: How Organizations Are Rethinking Compensation in 2026. Los Angeles: Korn Ferry Institute, 2026.
MCKINSEY & COMPANY. The State of Organizations 2025. McKinsey Global Institute, 2025.
MERCER. Total Remuneration Survey Brazil 2026. São Paulo: Mercer, 2026.
PARLAMENTO EUROPEU E CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA. Diretiva (UE) 2023/970, de 10 de maio de 2023, relativa ao reforço da aplicação do princípio da igualdade de remuneração por trabalho igual ou de valor igual mediante a transparência salarial. Jornal Oficial da União Europeia, 2023.
SHRM. Employee Benefits Survey 2024. Alexandria: SHRM, 2024.
WILLIS TOWERS WATSON. Benefits Trends Survey 2025. Londres: WTW, 2025.


O Instituto Chiavenato oferece o Programa de Mentoria Estratégica para Líderes de RH, com turmas dedicadas para profissionais do Brasil, de Portugal e dos países da CPLP e da América Latina, conduzido por Lucas Chiavenato. O programa combina sessões individuais, encontros em grupo com análise de casos reais e acesso ao acervo de obras e metodologias do Instituto. Conheça a mentoria executiva, a consultoria organizacional e o catálogo na loja de livros.

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest