ESG 2.0: o que muda na gestão da sustentabilidade e por que isso importa para o administrador
O ESG deixou de ser um capítulo à parte do relatório anual para se tornar uma questão de estratégia, risco e valor. Este artigo explica a transição do ESG 1.0 para o ESG 2.0, o que mudou nas regras do jogo, inclusive no Brasil, os riscos que o gestor precisa administrar agora e por que a sustentabilidade bem conduzida se tornou vantagem competitiva, e não custo.
Durante mais de uma década, ESG — sigla em inglês para ambiental, social e governança — foi tratado por muitas organizações como um exercício de reputação: um relatório caprichado, um selo, uma página no site. Esse ciclo se esgotou. Sob a pressão de investidores mais exigentes, novas normas contábeis e uma opinião pública atenta ao greenwashing, entramos em uma nova fase, que o mercado tem chamado de ESG 2.0. Para o administrador, entender essa virada não é acompanhar uma moda: é uma competência de gestão. A seguir, veja o que está em jogo e como se posicionar.
Do ESG 1.0 ao ESG 2.0: o que exatamente está mudando
O ESG 1.0 nasceu focado em divulgação. O objetivo central era comunicar boas práticas e responder a questionários de rating. Muitas iniciativas ficavam na periferia do negócio, desconectadas da estratégia e, não raro, contaminadas por promessas que os números não sustentavam. A crítica ao greenwashing, a prática de parecer sustentável sem de fato ser, expôs os limites desse modelo.
A virada não aconteceu por acaso. Durante anos, cada empresa reportava do seu jeito, escolhendo entre uma sopa de siglas de padrões voluntários, o que impedia comparação e abria espaço para escolher apenas o que era conveniente mostrar. Investidores institucionais passaram a exigir informação comparável, auditável e relevante para a decisão de alocar capital. Foi essa pressão, somada ao avanço regulatório, que empurrou o mercado para um novo patamar de exigência.
O ESG 2.0 desloca o eixo do discurso para a decisão. A sustentabilidade passa a ser tratada como variável de estratégia, de gestão de risco e de alocação de capital, com metas mensuráveis, dados auditáveis e integração aos indicadores financeiros. Em síntese, a diferença é de natureza:
• ESG 1.0: relatório e reputação; foco em divulgação voluntária; iniciativas paralelas ao negócio; métricas frouxas.
• ESG 2.0: estratégia e resultado; dados verificáveis e auditados; integração à gestão e ao capital; foco em impacto real.
As novas regras do jogo: dados, materialidade e regulação
A maturação do ESG veio acompanhada de padronização. Em 2023, o ISSB (conselho ligado à IFRS Foundation) publicou as normas IFRS S1 e S2, criando uma linguagem global para o relato de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima. Junto veio o conceito de dupla materialidade: a empresa passa a reportar tanto como as questões socioambientais afetam seu resultado financeiro quanto como suas operações afetam a sociedade e o meio ambiente.
No Brasil, a Resolução CVM 193, de 2023, adotou essas normas: a divulgação seria voluntária a partir de 2024 e obrigatória para companhias abertas a partir de 2026, com asseguração por auditor independente. O movimento, porém, não foi linear. Em maio de 2026, a Resolução CVM 244 reviu a decisão e tornou o relato facultativo, sem data de obrigatoriedade, mantendo um mecanismo de “pratique ou explique” previsto para 2027. Na Europa, a mesma tendência de recalibragem apareceu no pacote Omnibus, que propôs restringir a diretiva de relato (CSRD) a empresas com mais de 1.000 funcionários, o que, segundo a estimativa da própria Comissão Europeia, reduziria em cerca de 80% o número de companhias obrigadas a reportar.
Os riscos que o administrador precisa gerenciar agora
O cenário do ESG 2.0 é mais rigoroso e, ao mesmo tempo, mais instável, e isso cria riscos concretos de gestão. O primeiro é o risco reputacional e jurídico do greenwashing: com dados auditáveis, alegações infundadas ficam expostas e podem custar caro em confiança e em litígio. O segundo é o efeito inverso, o greenhushing, empresas que, com medo da crítica, deixam de comunicar avanços legítimos e perdem valor de marca e de relacionamento com investidores.
Há ainda o risco de volatilidade regulatória. As idas e vindas da CVM no Brasil e do Omnibus na Europa mostram que o gestor não pode desenhar sua estratégia mirando apenas o prazo legal do momento; precisa de uma base sólida que sobreviva a mudanças de regra. Some-se a isso a politização do tema, especialmente nos Estados Unidos, onde o ESG virou pauta de disputa ideológica e pressiona empresas globais.
Mesmo antes do retorno de Donald Trump, estados governados por republicanos já criticavam o ESG, argumentando que gestores de recursos estariam priorizando objetivos políticos em vez da rentabilidade; critérios ambientais penalizariam setores tradicionais, como petróleo, gás e carvão, e políticas de diversidade representariam interferência ideológica na gestão empresarial. Diversos estados aprovaram leis restringindo o uso de critérios ESG por fundos públicos e instituições financeiras.
Por fim, existe o risco operacional do dado: reportar com qualidade exige governança de informação, sistemas e capacitação, e organizações despreparadas descobrem tarde que não têm os números que a nova régua exige. Nesse contexto, segurança da informação, compliance e governança de dados são pilares essenciais para garantir transparência, reduzir riscos, atender às exigências regulatórias e fortalecer a confiança de investidores, clientes e da sociedade. Organizações que tratam os dados ESG como ativos estratégicos tendem a apresentar maior credibilidade e capacidade de adaptação em um ambiente regulatório e competitivo cada vez mais exigente.
A proposta de valor: por que ESG 2.0 é gestão, não custo
Diante de tanta turbulência, seria tentador concluir que o ESG perdeu força. É o oposto. Quando a obrigação legal recua, o que permanece é a lógica de negócio, e é justamente aí que o administrador encontra a proposta de valor. Empresas com boa gestão socioambiental tendem a acessar capital em melhores condições, porque reduzem a percepção de risco de quem investe e empresta. Ganham resiliência: antecipam-se a rupturas de cadeia, a exigências de clientes corporativos e a passivos ambientais. Atraem e retêm talentos, que cada vez mais escolhem empregadores por propósito. E constroem diferenciação competitiva difícil de copiar.
Há também um efeito direto no caixa. Gestão ambiental madura significa, na prática, menos desperdício: eficiência energética, redução de resíduos e melhor uso de recursos que se traduzem em custo menor. E há o efeito de cadeia: grandes compradores corporativos passaram a exigir critérios socioambientais de seus fornecedores, de modo que estar preparado deixou de ser diferencial de imagem e virou condição para permanecer no jogo em muitos mercados B2B.
Essa leitura conversa diretamente com a evolução das teorias da Administração. Na obra de Idalberto Chiavenato, a disciplina caminha das eras industriais para a Era da Informação, Digital e Exponencial, em que a organização é entendida como um sistema aberto, em interdependência com a sociedade e o ambiente, e a gestão se orienta cada vez mais por propósito. Nessa chave, o ESG 2.0 não é um apêndice da estratégia: é a expressão contemporânea de uma administração que cria valor de forma sustentável e responsável ao longo do tempo.
Como se preparar: o papel do gestor
O caminho prático começa por tratar a materialidade com seriedade — identificar quais temas socioambientais realmente afetam (e são afetados pelo) negócio, e por integrar esses temas ao planejamento estratégico, aos indicadores e à governança da informação. Reportar deixa de ser tarefa da área de comunicação e passa a envolver finanças, riscos e a alta liderança.
Na prática, três movimentos fazem diferença. Primeiro, montar uma base de dados confiável: sem sistema e sem rotina de coleta, não há relato que resista a uma asseguração independente. Segundo, definir poucas metas relevantes e factíveis, além de acompanhá-las como se acompanham metas financeiras, com responsável e prazo. Terceiro, formar liderança e equipes para ler o tema com competência técnica, e não como slogan. Menos promessa, mais evidência: é isso que separa quem lidera a transição de quem apenas reage a ela.
O gestor do século XXI precisa desenvolver uma visão integrada, na qual ESG, governança de dados, segurança da informação, compliance e transformação digital deixam de ser temas isolados e passam a fazer parte da estratégia organizacional. O ambiente empresarial atual exige decisões baseadas em dados confiáveis, respeito às exigências regulatórias e capacidade de responder rapidamente a mudanças econômicas, tecnológicas e sociais.
Considerações Finais
O ESG 2.0 é, no fundo, o amadurecimento de uma ideia: sustentabilidade só se sustenta quando vira gestão. Para o administrador, a mensagem é clara, quem dominar dados, materialidade e integração estratégica não estará apenas cumprindo norma, estará construindo empresas mais resilientes e mais valiosas. Formar-se para esse novo cenário é, hoje, uma decisão de carreira.
Assim, o gestor deixa de focar exclusivamente na eficiência operacional para assumir o papel de articulador entre desempenho econômico, responsabilidade socioambiental e inovação, criando organizações mais resilientes e preparadas para os desafios de um mercado cada vez mais complexo e conectado.
Referências
CHIAVENATO, Idalberto; CHIAVENATO, Lucas; SIQUEIRA, Maria. Introdução à Teoria Geral da Administração. 11. ed. Rio de Janeiro: Atlas/GEN, 2025.
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). Resolução CVM 193, de 20 de outubro de 2023. Dispõe sobre a elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade (padrões CBPS/ISSB).
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM). Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026, que torna facultativa a divulgação do relatório financeiro de sustentabilidade e de clima. Disponível em: gov.br/cvm.
IFRS FOUNDATION. IFRS S1 e IFRS S2 — normas do ISSB para divulgações relacionadas à sustentabilidade e ao clima, 2023.
COMISSÃO EUROPEIA. Pacote Omnibus de simplificação das regras de sustentabilidade (CSRD e CSDDD), 2025.
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Marcos Henrique do Espírito Santo
ESG e Sustentabilidade
Atuação em sustentabilidade corporativa, governança e modelos de impacto, com foco na integração de práticas ESG à estratégia de negócios.
Autor e docente da Pós-Graduação em Gestão de Negócios na Era Digital
Instituto Chiavenato & Faculdade Phorte


